top of page

1. Fatores no processo de tornar-se humano
Há uma ligação entre a participação em contextos sociais e culturais particulares e modos como nos tornamos humanos. Tornamo-nos humanos através da aprendizagem de formas partilhadas e reconhecíveis de ser e de nos comportarmos.
A capacidade humana de continuamente transformar o meio em que vive, adaptando-se a ele e adaptando-se a si, de aprender formas de lidar com o ambiente e de inventar novas maneiras de o fazer, aumentou, ao longo do tempo, as hipóteses de sobrevivência dos seres humanos. A prática destas capacidades criou necessidades de coordenação e de cooperação entre humanos, bem como o desenvolvimento de novas capacidades para o fazer (pe, capacidade de comunicar através de linguagens complexas, escrita, pintura, ornamentação do corpo, etc  o exercício destas capacidades conduziu ainda à criação de modos particulares de ser e de vier em conjunto).
Pode dizer-se que a História assistiu, e assiste, à construção de um mundo inter-humano: casas, cultivo de alimentos, meios de transporte, etc. Este mundo construído, embora em permanente relação com o mundo natural, constitui o ambiente de suporte e proteção dos seres humanos e das suas formas de vida. Os seres humanos organizam sociedades e criam cultura.
É a cultura que confere ao indivíduo características humanas.



Noção de cultura

 

(Edward B. Tylor) A cultura é uma totalidade, um todo: mais do que uma soma de crenças, artefatos, valores, regras e costumes, a cultura é uma totalidade onde se conjugam estes diversos elementos materiais e simbólicos.

CULTURA

Exemplos de elementos culturais:

 

  • Crenças: religiões, ideologias políticas, ideias acerca da natureza humana.
  • Teorias (corpos de conhecimentos): ciência moderna e as suas disciplinas, diversas astrologias e medicinas alternativas.
  • Construções e objetos produzidos: casas, estradas, computadores, roupa, etc.
  • Valores: comportamentos, qualidades e/ou objetos.
  • Leis e normas: importantes para regular a vida em sociedade.
  • Artes: modos próprios de expressão de uma sociedade.
  • Costumes: modos convencionais de interagir socialmente, de se comportar relativamente a outros e de se apresentar em sociedade. É uma categoria muito ampla, inclui desde modos de vestir e saudações a preparação dos alimentos.

Todos estes elementos, simbólicos e materiais, encontram-se organizados de forma dinâmica no todo cultural, isto é, mudam e influenciam-se mutuamente a cada momento.
Na totalidade cultural, os diversos elementos estão profundamente interligados. Os elementos simbólicos, como as crenças, os valores e as normas, encontram expressão, isto é, materializam-se nas múltiplas produções culturais. Mas, ao mesmo tempo, são estas mesmas práticas e modos de fazer, são estes comportamentos, relações e objetos, que são simbolizados, construídos simbolicamente, nas teorias, nos valores ou nas leis de uma determinada cultura.
A cultura é um elemento inescapável do ambiente de qualquer pessoa, pelo que, ao longo da vida, se traduz em múltiplas e variadas consequências na forma como cada um pensa, sente e se comporta. Nem o que somos, nem os nossos processos psicológicos resultam apenas da influência moldadora da cultura. Para além de produtos da cultura, somos também os seus produtores. A influência entre os processos psicológicos e a cultura é mútua, dinâmica e permanente.



As “crianças selvagens”

 

O termo “crianças selvagens” é utilizado para referir as crianças que cresceram privadas de todo o contacto humano, ou cujo contacto com outros seres humanos foi mínimo. Abandonadas, perdidas ou vítimas de situações de abuso, estas crianças sobreviveram em isolamento ou na companhia de animais até terem sido encontradas ou recolhidas por outros seres humanos.
As crianças selvagens, no momento em que são encontradas, possuem uma linguagem sobretudo mímica, em alguns casos imitativa dos sons e gestos dos animais com que conviveram. A sua linguagem verbal é quase sempre nula ou muito reduzida. O seu comportamento social não é, em geral, orientado para outros seres humanos. As crianças selvagens não choram, nem riem, manifestam dificuldades no controlo emocional e têm de aprender a exprimir as suas emoções e a reconhecer emoções no rosto das pessoas com quem interagem.
Nem sempre é fácil reconhecer a humanidade destas crianças.

 

 

Culturas


A cultura varia no tempo e no espaço, varia com as épocas e momentos históricos, assim como varia de lugar para lugar, pelo que não há nunca uma única cultura, mas múltiplas culturas.
Todas as comunidades humanas possuem cultura. As diferentes culturas refletem as diferentes maneiras como as diversas comunidades organizaram e integraram, em formas de viver em conjunto, os acontecimentos da sua História, as suas necessidades de sobrevivência e as exigências do meio onde vivem. A resposta às várias necessidades e situações não é uniforme: não há uma cultura, mas culturas.



Fatores que ajudam a perceber como emergem as diferentes culturas:

  • constrangimentos geográficos e ecológicos (habitat)
  • criações que vão desenvolvendo
  • o que acontece ao longo do tempo
  • contactos que vão estabelecendo com outras culturas

Todos estes fatores concorrem para que as diversas culturas se transformem e adquiram especificidades próprias - Diversidade Cultural

 

 

Padrões culturais

 

A cultura de cada comunidade ou grupo social especifica formas particulares e padronizadas de ser e de viver.
Conjunto de comportamentos, práticas, crenças e valores comuns aos membros de uma determinada cultura (vestuário, forma de cumprimentar, alimentação) - Padrão Cultural



Os padrões culturais desempenham um papel muito importante no enquadramento da construção de significados em muitos domínios da vida social. Ao influenciarem as atividades, os modos de relação entre as pessoas e os significados que lhes estão associados, ajudam a determinar, para um dado grupo cultural, quais são as experiências comuns e o que estas experiências podem significar.

Por vezes, os padrões passam despercebidos por estarem tão presentes na vida das pessoas e não temos consciência da sua existência. A cultura a que pertencemos exerce uma grande influência na forma como pensamos e agimos e nos nossos valores, definindo o que achamos normal e anormal. Por isso, devemos ter os padrões culturais em conta, para que, quando virmos algo/alguém que não nos é familiar, não julguemos negativamente.
Contudo, não podemos considerar os padrões culturais realidades estáticas. Cada padrão cultural muda permanentemente, não só pela ação criadora, produtora de cultura, de cada um dos seus membros, como também através do contacto com outras culturas, com elementos culturais até aí estranhos.



Conceito de aculturação



A aculturação refere-se aos processos que decorrem do contacto entre elementos culturais, ou entre pessoas, pertencentes a diferentes culturas. A aculturação diz respeito ao conjunto dos fenómenos resultantes do contacto contínuo entre grupos de indivíduos pertencentes a diferentes culturas, assim como às mudanças nos padrões culturais de ambos os grupos que decorrem desse contacto.
Muitas vezes dá-se o aparecimento de criações culturais novas (hábitos, matérias primas, alimentos, formas de fazer e de compreender o mundo), mas também o desaparecimento e a destruição de elementos culturais. A História está cheia de exemplos de processos de aculturação.
Este processo é particularmente sentido nos nossos dias, em que se pode falar de uma sociedade global (resultante das viagens, do turismo, das migrações, das comunicações, etc). A aculturação é um fenómeno que leva a mudanças culturais, quer as culturas sejam maioritárias, quer sejam minoritárias. Tanto umas, como outras têm permanentemente que reagir e adaptar-se àquilo que de novo as desafia.

 

 

Socialização

 

A socialização é o processo através do qual cada um de nós aprende e interioriza os padrões de comportamento, normas, práticas e valores da comunidade em que se insere. Esta interiorização permite, não apenas a integração individual no grupo sociocultural, mas também assegura a reprodução deste mesmo grupo e das suas formas de organização.
Enquanto parte de um determinado grupo sociocultural, cada pessoa adquire estes modos de fazer e de se comportar que são os tidos como próprios, que são os esperados, dentro do grupo a que pertence. No entanto, cada pessoa não se limita a integrar as práticas, normas e valores do seu grupo. Enquanto membro desse grupo, participa ativamente na produção, recriação e transmissão dos seus padrões de cultura e de socialização.
É neste processo dinâmico de aquisição e de produção que se pode compreender o processo de socialização. A socialização acontece enquanto a pessoa participa, age e se comporta em diversas relações, práticas e instituições.



Socialização primária e secundária


A socialização ocorre ao longo de toda a vida e divide-se em dois tipos de socialização:

  • socialização primária: aprendizagens básicas da vida em comum (comportamentos considerados adequados e reconhecidos como formas de pensar, sentir, fazer e exprimir próprias de um determinado grupo social). Ocorre com muita intensidade durante os períodos de crescimento, com as pessoas que nos são mais próximas (família, grupo de pares, vizinhos, jardins de infância, etc) - grupos primários.
  • socialização secundária: ocorre sempre que a pessoa tem de se adaptar e integrar em situações específicas, novas para o indivíduo (mudança de escola, primeiro emprego, passagem à reforma, casamento, divórcio, etc). Exigem, de cada um, a criação de novas formas de ser que se adequem aos novos contextos socioculturais e experiências de vida que neles surgem - grupos secundários.

Dependendo das experiências sociais de cada um e das oportunidades de mudança que estas proporcionam, a forma como cada um de nós se comporta, assim como o meio sociocultural em que age e atua, torna a integração dos diferentes acontecimentos, aprendizagens e significados culturais na história pessoal de cada um, única e flexível.

bottom of page