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2. A história pessoal: fatores internos e externos
O ser humano, enquanto ser com capacidade de autodeterminação, escapa à determinação biológica e sociocultural.

 

 

 

História pessoal


Desde o nascimento, integrada numa comunidade, cada pessoa acumula um conjunto de experiências vividas com os outros (pais, irmãos, familiares, amigos, etc). Essas experiências, a que se atribui cada vez mais importância, marcam cada um de nós, tornando-nos únicos e distintos de todos os outros. Essas experiências deixam marcas na nossa forma única de ser que nos distingue dos outros e que fazem parte integrante da nossa história pessoal.
Cada um tem uma história pessoal, uma história de vida singular que nos individualiza. Reconhecemo-nos como humanos, fazemos parte de uma cultura, de uma sociedade e temos uma história de vida que marca a nossa identidade pessoal.
O mundo em que cada um se insere não é apenas seu: os seres humanos tornam-se humanos no seio das relações sociais.

 

 

Papel dos significados


As experiências vividas (experiências do mundo, experiências dos outros, e de nós mesmos) constituem um elemento fundamental da nossa vida psíquica, que marcam a história de cada um de forma única, sendo que uma mesma situação é encarada de forma diferente por diferentes indivíduos.
A ligação que cada um estabelece com estas experiências faz-se através dos significados que cada um lhes atribui. É no significado que se realiza a síntese entre a singularidade que cada pessoa e a sua situação ou contexto, quer biológico, quer sociocultural.
Experienciamos o mundo enquanto seres biológicos e sociais. Enquanto sujeitos ativos, encontramos significados para as nossas ações, pensamentos e emoções. Desta forma, participamos na determinação de nós próprios e na determinação dos contextos onde videmos.
O ser humano, ao construir os significados para as suas experiências, integra a sua forma pessoal de ver, sentir, agir sobre o mundo – daí o carácter subjetivo da forma como as situações e acontecimentos são vividos e encarados.
Há em todos estes processos um movimento do sujeito para o exterior – o sujeito atribui significados pessoais às experiências que vive – e um movimento em sentido oposto dado que as experiências vividas são interiorizadas e integradas na individualidade de cada um.
A história pessoal desenrola-se, portanto, na relação entre fatores internos, entre o que é objetivamente percebido e o que é subjetivamente construído. A história pessoal escreve-se num diálogo, único para cada um, entre o que se é, o que acontece e o que se experiência. É neste diálogo que a experiência adquire significados pessoais.

 

 


Auto-organização e criação sociocultural


No nosso encontro com o mundo construímos significados pessoais. Mas o mundo que encontramos não é um mundo vazio. Existem nele todo o tipo de significados culturais (histórias preexistentes, instituições, regras, etc).
O ser humano é uma criação sociocultural, pois, no encontro com tudo o que se constitui como a nossa experiência, ordenamos e organizamos a nossa história, pensamos, sentimos e atuamos nela, através da ação dos nossos esquemas organizadores. É esta ação que integra e organiza as experiências e as torna compreensíveis.
Os seres humanos agem de forma a criar ordem e sentido a partir do conjunto das suas experiências: são seres auto-organizados. Através da ação dos processos de auto-organização sobre o seu fluxo de experiências, os seres humanos constroem-se agindo no mundo, organizando-se no seu envolvimento com o mundo. A capacidade que temos de integrar as experiências na nossa história pessoal, de as organizar e de lhes atribuir um significado, permite-nos construir permanentemente a continuidade e a coerência de um sentido de nós próprios no mundo.
Cada um de nós age no seu ambiente de forma a manter a continuidade do seu sentido de si e a compreensibilidade da nossa experiência faz com que seja possível, dia após dia, reconhecer que continuamos a ser a mesma pessoa e que o nosso mundo é ainda o nosso mundo.
Através dos processos de auto-organização, as diversas experiências são integradas na história pessoal adquirindo significado. Enquanto ser auto-organizado, o ser humano adquire um sentido de coerência e continuidade a partir da diversidade de experiências e significados. Os significados e as histórias pessoais criadas, as formas de nos compreendermos a nós, aos outros e ao mundo em que vivemos, mantêm-se, mudando continuamente num mundo que muda conosco e no qual participamos.
Enquanto seres capazes de agir sobre os seus contextos e as suas experiências de vida, enquanto seres dotados de autonomia e capazes de auto-organização, os seres humanos não só criam, em parte, a sua própria história pessoal como também transformam o seu ambiente físico e sociocultural. Atuam sobre o seu corpo e sobre a sua situação. Ao fazê-lo, alteram os acontecimentos possíveis, as suas experiências prováveis e os seus significados, participando na definição do seu percurso pessoal e daquilo que o envolve.



Adaptação e autonomia


Os seres humanos são seres capazes de autonomia, isto é, seres capazes de participar dos processos de transformação e determinação de si e dos seus ambientes socioculturais. Apesar de capazes de autonomia, esta não existe no vazio. Faz parte de uma teia de outras opções, outras histórias, outras situações, outros significados que circunscrevem determinadas possibilidades e favorecem outras.
A adaptação é frequentemente entendida como uma resposta do indivíduo ao seu contexto. Face ao seu contexto, os indivíduos desenvolvem formas de responder às pressões e aos desafios que se colocam à sua sobrevivência. Contudo, não podemos encarar este processo de uma forma mecânica considerando os seres vivos como organismos meramente reativos que apenas respondem às condições ambientais, às pressões de um contexto que existe antes deles e perante eles.
As características que emergem e se desenvolvem dependem sempre da forma como organismo e ambiente interagem. Nessa integração atuam os processos de auto-organização e de autonomia de que os seres humanos são capazes.
A adaptação processa-se na interação entre o indivíduo e o seu meio, resultando uma evolução.

CULTURA

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