Portefólio Psicologia B
Joana Machado
ESCCB
GENÉTICA
Preformismo e Epigénese
O papel da ação genética nas características orgânicas e no comportamento dos seres humanos tem sido objeto de diferentes teorias: umas enfatizam o papel da hereditariedade, outras o papel do meio.
- Preformismo:
Esta teoria considerava que o ovo continha o indivíduo em miniatura (homúnculo). Defendia que o desenvolvimento embrionário consiste no desenvolvimento de potencialidades preexistentes no ovo.
O desenvolvimento do novo indivíduo limitava-se ao aumento do tamanho do ser em miniatura, amplificação das estruturas preexistentes no ovo.
O preformismo acentua a dimensão genética do desenvolvimento, não tendo em conta o efeito do ambiente. O desenvolvimento dependeria, portanto, apenas da componente hereditária, ou seja, determinismo hereditário.
- Epigénese:
Em 1759, Caspe Wolf afirmava que o ovo é uma estrutura desorganizada e a diferenciação do embrião dá-se pelo efeito de forças exteriores; nega a existência de estruturas preformadas no ovo e que se desenvolvem mais tarde. O desenvolvimento é o resultado de um processo gradual de crescimento, diferenciação e modificação.
No sec. XIX, considerava-se que os organismos dependiam das estruturas genéticas e da intervenção do meio ambiente; é a partir de um estado simples e homogéneo que se desenvolve progressivamente o embrião. Neste processo, surgem potencialidades que não estavam presentes no ovo fertilizado original, mas que se desenvolvem a partir de influências do ambiente: genótipo e fenótipo.
O termo epigenético refere-se a tudo o que não é determinado pelo património genético. Correspondem às modificações transmissíveis e reversíveis das expressões dos genes, mas que não implicam modificações nas sequências de ADN, ou seja, variabilidade individual.
O desenvolvimento não é, portanto, a simples sucessão de etapas pré-derteminadas no ovo: resulta de um conjunto complexo de interações entre as possibilidades genéticas e as influências do meio, do contexto. Em vez de uma simples cadeia de etapas predefinidas, prevalece o conceito de rede multidimensional.
É no próprio desenvolvimento embrionário que emergem novas potencialidades que não estavam incluídas na célula fertilizada original, mas que se desenvolvem a partir de influências do ambiente pré-natal e da interação das células.
Epigénese designa o que na construção do organismo e dos seus comportamentos não depende apenas dos genes nem apena das aprendizagens. Prolonga os efeitos da genética sem serem determinados por esta.
3. A complexidade do ser humano e o seu inacabamento biológico
O ser humano é um ser complexo. O desenvolvimento humano divide-se em: desenvolvimento da espécie (filogénese) e desenvolvimento do indivíduo (ontogénese).
Filogénese e ontogénese
- Filogénese: conjunto de processos de evolução dos seres vivos (dos mais complexos aos mais simples); é o conjunto de processos biológicos de transformação que explicam o aparecimento das espécies e a sua diferenciação, ou seja, história evolutiva de uma espécie.
- Ontogénese: desenvolvimento do individuo desde a fecundação até à morte: inicia-se com a embriogenese, continua no desenvolvimento pós-natal até a morte.
- Lei da recapitulação: Em finais do século XIX, segundo Ernst Haeckel, o desenvolvimento embrionário dos vertebrados recapitula as etapas da evolução-> lei da recapitulação da ortofilogenética. O desenvolvimento do embrião exprime, recapitula etapas do desenvolvimento que correspondiam a estados da evolução, da historia filogénica das espécies: ontogénese repete a filogénese, mas provou-se que isso está errado.
- Papel da ontogénese: Investigadores posteriores vieram mostrar que o indivíduo é produto da interação entre os fatores genéticos e os fatores ambientais, logo o desenvolvimento do individuo não resulta apenas de fatores biológicos: resulta da interação de fatores internos e de fatores externos. É a interação que garante a adaptação ao meio ambiente, que é condição de sobrevivência.
Não é a filogénese que determina a ontogénese (como defendia a leia da recapitulação). Mas o contrario: a ontogénese e a causa da filogénese. Um ser que não se modificasse no sentido da adaptação morreria, uma espécie que não mudasse, que não se conservasse fase a um ambiente em mudança, extinguir-se-ia.
A filogénese é uma sucessão de ontogéneses que evoluíram, produtos de mutação e da solução natural. Assim, as espécies sobrevivem.
Em 1977, os estudos sobre a evolução humana de Stephen Jay Gould, baseados no darwinismo, omitiram o papel da ontogénese. A ontogénese é central na compreensão do desenvolvimento humano.
Ontogénese = interações genéticas mais epigenéticas.
Programa genético
Podemos afirmar que todos os seres vivos estão programados. O programa de desenvolvimento passa por diferentes fases até ficar completo e ter características que os distinguem dos outros seres vivos da sua espécie.
- Programas Genéticos Fechados: preveem de forma determinada processos evolutivos, comportamentos característicos determinada espécie.
- Programas Genéticos Abertos: as ações do ser humano não são definidas por um programa fechado. Existe uma programação básica de índole biológica, mas o ser humano não está determinado por um sistema de instintos que defina, à partida, o seu desenvolvimento e o seu comportamento. Com um organismo menos preparado geneticamente para defrontar desafios a que os animais respondem com total eficácia, o Homem tem capacidade para enfrentar situações imprevistas. A sua “imperfeição”, o seu inacabamento, permitem-lhe adaptar-se às mudanças, às situações imprevistas, ou seja, há vantagens na não especialização.
Prematuridade e Neotenia
O Homem é um ser biologicamente inacabado (Neotenia):
- o seu organismo leva muito mais tempo a atingir o pleno desenvolvimento do que o das outras espécies
- o ser humano, quando nasce, apresenta uma incapacidade para reagir de forma tão eficaz ao meio
- o ser humano é um ser prematuro: não apresenta as suas capacidades e competências desenvolvidas, ou seja, a infância é muito longa.
- a infância humana é o período de acabamento do processo de desenvolvimento que decorre na vida intrauterina. Este período é essencial para a sobrevivência e adaptação da espécie, ou seja, é vital para o ciclo de vida humano.
- Neotenia: atraso no desenvolvimento que faz com que o indivíduo se desenvolva mais devagar, dependendo, durante muito mais tempo (20 anos no ser humano), dos adultos, porque é preciso ensinar-lhe a andar, falar, comer, etc. O que implica que a sua infância seja tão longa. O processo de desenvolvimento continua após o nascimento. São os genes de desenvolvimento que fazem do ser humano um ser neoténico, isto é, um animal em que há um prolongamento da morfologia juvenil até à idade adulta: juvenialização.
- Vantagens do inacabamento humano:
- a aprendizagem irá cumprir as tarefas que os animais são destinados pela hereditariedade: o ser humano tem de aprender o que a hereditariedade propicia a outras espécies.
- a natureza biológica do ser humano torna mais flexível o processo de adaptação do meio; cria a necessidade de o Homem criar a sua própria adaptação, a cultura que transmite de geração em geração
- o estatuto do ser humano só é atingido através da aprendizagem
- a prematuridade do ser humano é, portanto, uma vantagem
